sábado, agosto 1

HOMOCRISTIANUS EVOLUTIS: Para onde estamos evoluindo?


Os cristãos homossexuais são diversos, mas é fácil observar que existe uma evolução na maneira como se entendem a si próprios, e a forma como relacionam a sua orientação sexual com a sua fé. Podemos dizer que atualmente coabitam diferentes “Homocristianus” e que muitos deles estão evoluindo para estados superiores de desenvolvimento. Talvez em pouco tempo alguns estados primitivos teriam já desaparecido, e haverá outros e outras “Homocristianus” aos que lhes custará entender qual foi a razão pela qual durante tanto tempo existiram cristãos e cristãs homossexuais que viviam a sua fé de outra maneira.

Os primeiros cristãos homossexuais não levantam a cabeça, são os “Homocristianus Abscondit”i, que como o seu nome indica vivem escondidos nas suas igrejas por de trás de uma imagem heterossexual que os ajuda a passar desapercebidos. A sua fé e a sua orientação sexual não são compatíveis. Têm uma imagem negativa de si mesmos, desprezam-se e sonham com que algum dia o Deus do céu lhes ofereça a heterossexualidade. A sua principal característica é o sofrimento, e viver a sexualidade como um castigo. Muitas destas pessoas, para não serem descobertas, casam-se com pessoas de sexo diferente e se têm relações homossexuais fazem-no de maneira secreta e só para satisfazer o seu instinto sexual.

A seguinte evolução são os “Homocristianus Mutatis” que de modo diferente dos anteriores decidiram num determinado momento tornar pública a sua orientação sexual num ambiente mais ou menos reduzido. A sua fé e a sua orientação sexual continuam sendo incompatíveis, mas estão convencidos que com uma vontade de ferro e os psicanalistas ou conselheiros pastorais apropriados podem fazer a mudança, podem transformar a tão ansiada heterossexualidade. Passam a vida mentindo, de recaída em recaída, ou o que é o mesmo, tornando evidente que a questão da mutação é um impossível. Algumas destas pessoas, como percebem como incompatíveis a orientação sexual e a fé cristã, acabam por abandonar o cristianismo. Contudo mantêm o sentimento de culpa em que foram educadas.

Quando o cristianismo fundamentalista fala de homossexuais, fá-lo exclusivamente de “Homocristianus Absconditi” e Homocristianus Mutatis”. Esses são os homossexuais que existem nas suas comunidades. A eles vai dirigido o seu discurso, só a elas e a eles pode afetar o que dizem visto que estes “Homocristianus” partilham a sua ideologia homofóbica. É surpreendente ver como umas comunidades cristãs que falam de libertação e de viver na verdade, são capazes de por na prateleira tantos “Homocristianus Absconditi”. Não surpreende tanto que este tipo de cristianismo alinhe com posturas que as principais correntes psicológicas rejeitam visto que em outras áreas científicas fazem o mesmo para defender as suas interpretações teológicas. Mas se chama a atenção a sua falta de humanidade, o pouco que lhes importa é o sofrimento que evidentemente sabem que sofrem as pessoas a que enganam com as suas terapias regressivas. Além disso o medo ao pôr em dúvida as suas posturas fundamentalistas traduz-se em negar que as pessoas que padeceram a sua homofobia se possam expressar.

O primeiro passo em termos de compatibilidade da orientação sexual e a fé dá-o o “Homocristianus Bíblicus” cuja principal razão de ser é a justificação bíblica da homossexualidade. Para estas cristãs e cristãos homossexuais a sua aceitação dentro das igrejas passa por demostrar que a Bíblia não os condena. O seu discurso está baseado na premissa de que os textos bíblicos que tradicionalmente se utilizaram para os condenar foram mal interpretados. Pela primeira vez o “Homocristianus” se atreve a tomar a iniciativa e a aproximar-se da Bíblia de forma distinta que os “Heterocristianus”. É aqui onde se concentram os enfrentamentos mais duros já que o fundamentalismo, que se outorgou da verdadeira interpretação da Bíblia, nega-se a perder o seu estatuto. O enfrentamento é desigual, uma luta entre David e Golias, mas é evidente que o “Homocristianus Bíblicus” conseguiu grandes avanços e permitiu mostrar que só a homofobia prévia do leitor torna possíveis as leituras homofóbicas tradicionais.

Em igrejas não fundamentalistas pudemos encontrar o “Homocristianus Juribus” que não vê problema quanto à compatibilidade da fé e a orientação sexual, mas que se reconhece discriminado dentro da igreja. Por essa razão trabalha a partir de dentro para conseguir os mesmos direitos que o resto das pessoas da comunidade. Aqui não há uma luta contra o fundamentalismo, mas contra o imobilismo e o conservadorismo. Acontece frequentemente que como dentro destas comunidades mais progressistas os homossexuais não são rejeitados directamente, o “Homocristianus Juribus” não é bem compreendido pelos “Heterocristianus”. O seu trabalho portanto é evidenciar a discriminação e lutar pela sua erradicação. Uma tarefa a longo prazo que não tem assegurado o final feliz, mas que permite somar a muitos “Heterocristianus” à luta pela justiça dentro da igreja.  Já são várias as igrejas na Europa e América que reconheceram os mesmos direitos em todos os âmbitos aos “Heterocristianus” e aos “Homocristianus”. Que isto possa ocorrer em Espanha, está por ver, mas não parece fácil pelo menos num prazo razoável.

O “Homocristianus Bíblicus” e o “ Homocristianus Juribus” diferenciam-se devido ao facto de o primeiro ainda ter laços com o fundamentalismo, enquanto o segundo rompeu-os para sempre. Contudo, os dois partilham a convicção de que há que convencer o “Heterocristianus”, que será o que lhes dará o sim ou o não definitivo. De alguma forma a heterossexualidade continua sem perder a sua hegemonia, o seu poder divino que regula e ordena a igreja, a fé e as sexualidades aceitáveis. Não há um olhar de igual para igual, mas que em ambas as posturas o “Homocristianus”  submete-se ao Deus heteronormativo. A que se deve esta necessidade de aceitação que às vezes parece enfermizar? É possível que ainda exista um vislumbre de culpabilidade por ter traído a heteronormatividade? Homofobia interiorizada? Ou simplemente incapacidade de pensar fora da teología heteronormativa?

No momento, o último escalão nesta evolução ocupa-o o “ Homocristianus Liberum”, que se atreve a viver a sua fé e a sua orientação sexual em contínuo diálogo. O primeiro não seria convencer o “Heterocristianus”, mas abrir-se à fé a partir da própria maneira de ser e sentir, ver que aporta e de que forma pode levá-lo a uma melhor compreensão do que ele ou ela é. Não se trata de convencer, de discutir... os “Homocristianus Liberum” abrem-se ao que a Bíblia lhes quer dizer tal e como são, agora ela não é um lugar para demostrar algo aos fundamentalistas, mas o lugar onde Deus se revela. O cristianismo não consiste em lutar para conseguir uns direitos dentro da igreja, mas em viver e transmitir, à sua volta, o evangelho libertador. E para isso o “Homocristianus Liberum” já não perde o tempo dentro de igrejas que não são verdadeiramente inclusivas. Espera que estas mudem, mas o evangelho não consiste em mudar igrejas, mas em seguir o exemplo de Jesus em qualquer área da vida. E se necessitam comunidades inclusivas, os “Homocristianus Liberum” constroem-nas, sem complexos, como milhões de cristãos e cristãs o fizeram ao largo da história. A questão agora já não se põe no que ocorre dentro de si mesmo, ou no que pensa a heteronormatividade, mas em participar na transformação de uma sociedade que necessita da mensagem libertadora de Jesus.

Qual será o seguinte “Homocristianus”? Ainda é difícil sabê-lo, mas de certeza que será alguém cuja razão de ser esteja mais próximo da mensagem de Jesus, e mais longe da opressão e da morte. E para isso necessita ir ao seu encontro, ao encontro do mestre, a partir do que cada um e cada uma é, sem acrescentar nem tirar nada. Que seja o mestre, ou o seguir o mestre, o que o transforme una vez mais.


Carlos Osma

Tradução de Aníbal Liberal Neves

Artigo original.

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