jueves, noviembre 3

Uma fé pequena



Hoje, não é fácil acreditar em Deus, não é fácil. Não é simples afirmar que lhe interessamos, que ainda tem um mínimo interesse por este mundo louco em que vivemos. Sempre nos movemos numa zona perigosa, onde corremos o risco de perder essa fé que, não sabemos bem porquê, nos acompanha sempre. Talvez não haja outra maneira de acreditar, digo às vezes para mim, talvez seja isso no máximo que podemos aspirar: ter uma fé pequena, débil e totalmente dependente de um Deus que, se existe, será capaz de nos acompanhar e perdoar se algum dia já não podermos crer n’Ele.

A fé com maiúsculas, dá-me medo, produz-me desconfiança e até temor. Conheço pessoas que dizem tê-la e que, como Abraão, estão dispostas a trespassar com uma faca afiada o peito do seu filho se Deus lho pede [1]. Máquinas frias ao serviço da verdade e da vontade divina, soldados insensíveis às ordens de um Deus que lhes pede para não pensar, não duvidar, não desobedecer, e mesmo não amar. Fé com maiúsculas que só sabe ler e não quer interpretar, que não pára de falar e condenar, mas não está disposta a escutar.

A minha fé pequena parece-se bastante com a de Sara, que não pôde conter o riso quando, já anciã, um anjo anunciou que ficaria grávida e teria um filho [2]. Riso e mesmo misericórdia, isso é o que me produzem os enviados de Deus que prometem soluções fáceis e maravilhosas. E não mentirei a nenhum anjo se mo perguntar, riu-me da infantilidade e ingenuidade dessa absurda maneira de entender a fé, ainda que seja uma fé tão grande. A fé pequena só dá para crer e sonhar que com esforço e tenacidade podemos mudar alguma das inumeráveis injustiças em que vivemos envolvidos. Não dá para muito mais, assim nos dediquemos a isso.

Uma das características da fé pequena é a arrogância, a capacidade de não morder a língua quando as coisas não são como cremos que deveriam ser. Isso aconteceu a Job com a sua pobre fé quando disse a Deus o que pensava d’Ele: que cegava a vista dos que sofriam e não lhes deixava nenhuma saída [3]. Assim, como um rato de laboratório, se sentia Job com Deus e assim o expôs claramente. Quem não pensou alguma vez que se Deus existe é um torturador sem nenhum tipo de empatia pelos seres humanos? Suponho que os da fé infinita não passaram por aqui, mas os que a temos minúscula e sofremos alguma vez, costumamos fazer sem hesitação o que agrada a Deus. Somos tão estupidamente humanos, que às vezes duvidamos da providência do Todo-poderoso e o dizemos com toda a veemência e ao mesmo tempo com uma cruel sinceridade.

A fé pequena nasce do sentimento de abandono e solidão que nos envolve tão a miúdo. Os que possuem uma fé como uma montanha, sempre têm e vêem Deus por todos os lados, pergunto-me frequentemente com que substância alucinante impregnarão as folhas das suas Bíblias e a realidade em que vivem. Do que sim estou convencido é de que na cruz de Jesus, essa substância não estava por nenhum lado, o seu grito de desespero deixou-o claro: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?[4]”. Quantas vezes nos sentimos assim, abandonados, mas não abandonados com a esperança de um final feliz, mas abandonados com a segurança de que Deus não aparecerá por nenhum lado. Quantas pessoas vivem cada dia com esse sentimento? Quanta gente não sabe o que significa a palavra esperança ou salvação? Quanta gente tem que fazer esforços titânicos para que a sua fé pequena no desapareça? Perdeu Jesus a sua fé na cruz, como tantas e tantas pessoas hoje? É possível. Mas Deus não deixou de acreditar n’Ele e ressuscitou-o dos mortos. Agarro-me à ideia de que a fé de Deus fornecerá a que algum dia nos possa faltar.

Disse Tomé que não acreditava na ressurreição se não a tocava, se não metia os dedos nas feridas de Jesus[5]. Um pecado terrível para os que não têm a capacidade de duvidar, mas uma mostra de inteligência y saúde mental para os que temos uma fé pequena. Não, não somos capazes de acreditar em histórias, em sonhos ou fantasmas. Necessitamos de algum prova que nos permita acreditar que tudo o que perdemos em alguma cruz, ou aquilo que deixámos atrás por cobardia, voltará a nós algum dia para nos dar uma segunda oportunidade. É difícil esperar o impossível sem ter algo em que se apoiar, é complicado ter fé se nada torna imaginável o que desejas. É absurdo acreditar em vidas que saem do inferno, quando não podemos ver e tocar em mulheres e homens reais que passaram por ali.

Talvez seja esta fé pequena a que impede que outras pessoas possam encontrar Deus em nossos atos e palavras. Reconheço-o, as "fés" tão minúsculas não dizem coisas maravilhosas nem são capazes de feitos prodigiosos que mudem o mundo num instante. Não sei se deveria pedir perdão por isso, mas não o vou fazer, porque as “fés” maiores não me agradam. E porque não creio em atos milagrosos, nem aparições divinas, só em pequenas e custosas transformações que ocorrem cada dia, sem apenas se notarem, nas vidas de tanta gente que, como eu às vezes, não somos capazes de ver Deus por parte nenhuma.


Carlos Osma

Tradução de Aníbal Liberal Neves



[1] Gen 22,1-19
[2] Gen 18, 1-15
[3] Job 3, 20-23
[4] Mc 15, 33
[5] Jo 20, 24

 Artigo Original: "Una fe pequeña"



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