jueves, julio 7

Ainda que todos te abandonem, eu não te abandonarei


“Ainda que todos te abandonem, eu não te abandonarei”, isso foi o que disse Pedro a Jesus quando este último lhe antecipou que, antes que o galo cantasse pela segunda vez, ele o negaria três vezes. Segundo os entendidos o cacarejar dos galos não tem como finalidade dar-nos os bons dias, mas demostrar o seu estatuto de macho dominante face aos outros galos e lançar uma clara mensagem às galinhas para que saibam onde se encontra e que está ativo sexualmente. Então, ao invés de marcar um limite horário, o que Jesus, talvez lhe estava a dizer a Pedro, é que no momento em que o galo exercesse a perfeição do seu papel de macho e proclamasse aos quatro ventos a sua heterossexualidade, Pedro daria conta que ele não estava à altura do que ia apregoando diante do resto dos machões discípulos com quem convivia.

Surpreende a energia que constantemente utilizava Pedro para que as coisas fossem como deviam ser, para que ninguém saísse dos papéis e dos moldes que tinham sido construídos para eles. A primeira vez que Jesus conheceu Pedro, mudou-lhe o nome, disse-lhe mais ou menos que a sua identidade não era a que o seu ambiente lhe tinha dado, que mais do que acreditar, que sabia tudo o que Deus lhe podia dizer, precisava de ser forte e persistente para ser útil à causa de Jesus. E Pedro decidiu seguir o mestre, mas comportando-se como Simão, como alguém a quem tinham ensinado a ser, a pensar e a sentir. Por isso em mais de uma ocasião, quando Jesus não se comportou como p Messias que todos esperavam, Pedro atreveu-se a repreendê-lo, a chamá-lo à ordem para que voltasse redil dos Messias aceitáveis. Não tinha deixado ele a sua casa e a sua vida, para seguir um Messias indecente. Quanto medo à liberdade! Quanto medo à vida! Quanto medo a deixar que as coisas sejam como são, observando-as, sem essa contínua necessidade de valorizá-las e dizer se entram no terreno do aceitável. A essa atitude tão repressiva Jesus denominou-a demoníaca, satânica, blasfema e exigiu a Pedro que a abandonasse se queria segui-lo.

Talvez por isso quando Jesus foi preso e levado a casa do sumo-sacerdote para ser interrogado, Pedro atreveu-se a fazer algo distinto ao resto dos machos alfa seguidores do mestre. Se todos os discípulos abandonaram Jesus e saíram fugindo na procura de um lugar seguro onde ninguém pudesse relacioná-los com aquele Messias indesejável; Pedro guiou-se pelos seus sentimentos e decidiu desprender-se da sua sombra para se comportar como as mulheres que seguiram Jesus até ao último momento. O pátio do sumo- sacerdote não era um lugar para homens cristãos, para eles havia uma casa bem longe onde se esconder. Pedro seguindo a Jesus, atemorizado e inseguro, atreveu-se a ocupar um espaço distinto ao do resto dos discípulos. Talvez pela primeira vez tentou ser aquela rocha forte que Jesus viu nele quando se conheceram.

Mas Pedro não esteve finalmente à altura porque tentou arriscar com a ambiguidade e, ainda que se tivesse atrevido a estar no lugar adequado, não teve a coragem de cara descoberta. Quis estar ao lado de Jesus, ao lado da verdade, mas a fazer como se tudo aquilo não tivesse nada que ver com ele. Talvez se lhe tivessem dado tempo, poderia ter tentado defender Jesus em nome da justiça, ou tê-lo-ia levado dali à força. Mas uma das empregadas reconheceu-o: “Tu andavas com Jesus, o de Nazaré”, tu és um deles, foi-lhe dizer. E Pedro atemorizado mentiu para se proteger: “Não o conheço nem sei de que estás a falar”, eu não sou um de esses. E saiu para fora da casa, como que tentando procurar um lugar menos próximo a Jesus que fosse mais seguro, mas não houve tréguas para ele e imediatamente voltou a encontrar-se com a empregada que explicou a toda a gente que Pedro era “um deles”.

Surpreende que uma empregada se atrevesse a falar diretamente com um homem, mas talvez ela soubesse que Pedro estava ao seu nível, que não era um homem como os demais, que também ele estava preso ao poder patriarcal. Por isso lhe falou de igual para igual. E Pedro, ao sentir-se ameaçado, tentou negar o evidente e escondeu-se por trás de uma identidade que não era a sua, fez um último esforço para se parecer com o resto dos homens cristãos que conhecia e estavam escondidos, muito longe dali. Talvez fosse a sua maneira de se mover, ou a sua forma de falar a que o denunciou definitivamente: “É certo que és um deles”, afirmaram todos os que estavam ali. E Pedro jurou e perjurou que não era assim, que ele não era quem eles diziam, que ele era outra pessoa. Na melhor das hipóteses desejava ser outro, voltar a ser o Simão de antes, e não estar a meio caminho entre quem se comporta como “Deus manda” e quem se liberta da opressão religiosa para viver o evangelho de Jesus.

Suponho que Pedro se sentiu perdido, sem saber para donde cair. Podia fugir e esconder-se junto aos restantes discípulos, entrar de novo na casa para tentar ver o mestre, ou voltar de novo ao seu barco e às suas redes. Mas precisamente nesse momento o galo cantou pela segunda vez e Pedro começou a chorar ao recordar as palavras de Jesus. Tinha sido absurdo fingir tanto para estar à altura do que os demais esperavam, ter arriscado a ser outra pessoa e ter dito a tanta gente como tinham que viver para não enfrentar a sua própria falta de vida. Tinha sido tão incoerente viver durante anos seguindo Jesus sem ter sido sincero com ele. Tê-lo-ia seguido verdadeiramente? Teria entendido realmente o que significava ser um dos seus discípulos?

O evangelho de João explica-nos que após a morte de Jesus, Pedro decidiu voltar à sua terra e continuar a sua vida junto com os restantes discípulos como se nada se tivesse passado. Decidiu enterrar-se em vida, apostar pelo, aparentemente, mais fácil, por ser um cobarde, por ser o homem que antes era: Simão. Mas o Jesus que venceu a morte voltou ao inferno em que Pedro vivia e perguntou-lhe: “Simão, amas-me?”, e ele envergonhado, mas com a sinceridade que jamais havia tido antes, respondeu-lhe: “Senhor, tu sabes tudo”.  E é verdade que Jesus o sabia, mas Pedro provavelmente tinha-o esquecido, por isso vivia como quem tem medo, como um cobarde, como um mentiroso, como se não existisse uma vida distinta e um amor diferente. E depois de examinar os seus sentimentos respondeu-lhe: “Tu sabes que te amo”. Sabia agora com toda a segurança que amava aquele homem que lhe pedia que deixasse tudo, a sua família, a sua sinagoga, os seus amigos, as suas ideias pré-concebidas, as suas posições sobre o santo e o pecador. Um preço muito alto por uma vida junto ao mestre..., ainda que seja maior o preço da morte. Por isso não duvido nem um momento quando Jesus se dirigiu a ele para lhe dizer: “Pois então, segue-me”.


Carlos Osma
Tradução de Aníbal Liberal Neves


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