lunes, mayo 9

Melhores são os teus amores que o vinho


O livro “Cântico dos Cânticos é uma jóia incómoda dentro da Bíblia, a sua inclusão dentro do Cânone gerou mais discussões e enfrentamentos que o atual debate sobre a inclusão das pessoas LGTBI dentro da Igreja. Talvez seja por isso que nos encanta, que lhe tenhamos carinho, que o consideremos um dos livros “mais nossos”, mais Queer, e portanto mais frescos e transgressores. “O meu amado é meu e eu sou seu”, e por muito que se engasguem algumas e alguns, abrimos bem a boca para dizer: “À sua sombra desejada me sento e o seu fruto é-me doce ao paladar”.
 Tentativas de domesticar e pôr na ordem o Cântico houve sempre e talvez o mais tosco e infantil o encontremos ainda em algumas traduções como a Reina-Valera 1995, onde os amantes são etiquetados como esposo e esposa. E é que não é decente o caso de que uma jovem Sulamita leve o amado para casa da sua mãe, e o convide a comer os frutos mais deliciosos do seu jardim sem antes ter passado pelo altar. O preço que teve que pagar o Cântico para ser aceite como um livro tão inspirado como os outros, foi o da obrigatoriedade de ser interpretado alegoricamente. E de interpretações alegóricas e absurdas sobre os nossos desejos e afetos sabemos muito as pessoas LGTBI. Após relações que o nosso meio ambiente etiquetava como “amigos como irmãos”“solteironas que compartem apartamento, “colegas de seminário” ou “primas inseparáveis”; escondiam-se doces carícias, beijos que sabem a mel, roupas que caíam ao chão e paixão em lugares inconfessáveis. Por isso o Cântico é nosso, porque fala da nossa experiência, de como os nossos desejos tão fortes e reais como os dos restantes, foram esfumados ou diretamente apagados para que pudéssemos continuar a formar parte dos ambientes onde nascemos.

Se os defensores do conservadorismo heteropatriarcal mais recalcitrante impõem leituras literais e homófobas da Bíblia, no Cântico dos Cânticos rendem-se aos encantos da alegoria. Uma mostra mais de que são uns reprimidos sexuais em toda a regra, incapazes de entender o sexo e o prazer como uma verdadeira prenda divina. E é que o Cântico nos fala disso, de duas pessoas que querem estar juntas,  que se procuram para disfrutar de todos os prazeres possíveis sem a necessidade de que a religião, a lei, a procriação, ou a sociedade lhes dê a sua aprovação. Duas pessoas livres e adultas que querem disfrutar do sexo e do amor plenamente, e que sabem, como todas aquelas pessoas que decidiram deixar-se abrasar pelo desejo, que a paixão é insaciável como o abismo e que nem as águas mais caudalosas podem apagar o amor.

“Beija-me com esses teus beijos, são melhores que o vinho das tuas carícias” diz-lhe a Sulamita ao seu amado. E encanta-nos escutá-la dizer isso, porque o resto das mulheres que aparecem na Bíblia não dizem coisas assim. A Sulamita é uma das nossas, não á a mulher virtuosa que claudica aos papéis de género que lhe impõem na sua sociedade. Não está ao serviço da procriação, do gerar de mão-de-obra para que a economia familiar prospere. Não se submete o varão, ela é livre e fala com o seu amado tratando-o de tu para tu; o seu amor dá-se entre iguais. E se ele não quer passar a noite entre os seus peitos, talvez ela decida ir-se depois dos rebanhos dos seus companheiros, porque é como uma égua no meio dos garanhões que puxam o carro do Faraó.

Jamais li ou escutei alguém insinuar que o Cântico tivesse sido escrito por uma mulher, a autoria masculina é a posição unanimemente aceite. Mas quando se fala de autoria está-se a pensar sempre no redator do Cântico, na pessoa que recolheu os distintos poemas procedentes de contextos, épocas e lugares distintos e tentou compor com eles uma obra com uma certa coerência. Há nesses poemas anteriores rastos de vozes que não encontramos noutros livros da Bíblia? Há marcas de desejos não normativos? Poderemos escutar depois da Sulamita a voz dos que não têm voz na Bíblia?

A resposta a todas essas perguntas entra no campo da teologia-ficção, a mesma teologia-ficção com a que alguns respeitáveis rabinos, e posteriormente teólogos, disseram ver por detrás dos namorados o povo de Israel e Jeová, a Igreja e Deus, a Cristo e a Igreja, a Cristo e à alma, a Deus e Maria... Uma lista inacabável de identificações que não se ressentirá se lhe acrescentarmos uma mais, uma que esteja baseada na nossa experiência como pessoas LGTBI em busca de libertação. Porque há alturas em que alguém quase sem o propor, crê ver por detrás da amada a experiência de muitas mulheres que viveram oprimidas desde há milhares de anos, mulheres às quais se tentou silenciar mas que souberam abrir caminho num mundo patriarcal para dizer que queriam ser livres, que desejavam ter relações em pé de igualdade com o homem a quem amavam, e que não queriam ser simples objetos à mercê dos desejos e necessidades do seu amo. Mas há outros momentos, em que por detrás dos versos do Cântico escutamos a experiência de mulheres que amavam outras mulheres mas não puderam nomear o que desejavam e foram obrigadas a viver mentindo sob uma máscara heterossexual para não levantar suspeitas. Mulheres que com a sua maneira descarada e atrevida de se dirigir aos homens, se revelaram para dizer que elas não seguiam a norma, que apesar de tudo, não se submetiam completamente ao poder heteropatriarcal.

Recuso-me a ver por detrás de Sulamita só uma projeção dos desejos de homens heterossexuais, e é por isso que talvez ingenuamente tento encontrar também a voz de homens que se puseram no lugar das mulheres que tinham amado para entender que sentiam e quais eram os seus desejos. Homens que se enamoraram de mulheres livres que lhes diziam o que pensavam, o que lhes agradava e o que não, o que lhes dava prazer e o que as aborrecia. Nego-me a crer que por trás dos versos do Cântico não se armazena alguma destas experiências. Mas parece-me evidente também, que há milhares de anos os homens que se enamoravam de outros homens podiam escrever versos como: “Vem, meu amor, corramos para o campo para passar a noite sob as murtas”. E para poder expressar sentimentos como estes alguns tiveram que pagar o preço de negar a sua identidade. Homens que procuravam subterfúgios para deixar gravado o que sentiam, da paixão que albergavam. Homens que procuravam caminhos de libertação e questionaram-se como era possível “desprezar quem dá por amor o que tem”. O que procuraram pelas noites nas suas camas ao amor da sua vida, e pelo dia se fizeram passar por irmãos para se poderem beijar e abraçar sem que os culpassem. Homens que pediram aos seus amados que lhes pusessem como um selo sobre o seu coração, e que reconheceram que a sua paixão era tão insaciável como o fogo divino.

Ler o Cântico é abrir-se ao desejo de libertação que muitos seres humanos têm e tiveram ao longo da história. O povo judeu lê este livro em público durante a festa de “Pésaj” que recorda a su saída do Egipto, a sua libertação da escravidão por parte de Yahvé. E para as pessoas LGTBI o livro Cântico dos Cânticos pode ser também um lugar de libertação que nos convida a expressar os nossos desejos livremente e deixar para trás os tabus para viver e disfrutar com as pessoas que amamos. Porque ainda que os guardas que patrulham as nossas igrejas e teologias não quisessem dizer-nos onde está o nosso amado, ainda que se atrevam a nos agredir por não seguir as suas normas e leis, o Cântico anima-nos a nos levantarmos e gritarmos a quem nos escuta, que se encontram o nosso amado lhe digam: que estamos doentes de amor.


Carlos Osma
Tradução de Aníbal Liberal Neves




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