martes, marzo 22

Crucificados com Jesus


A cruz é o lugar onde se evidenciou que Jesus não era o Messias, ou pelo menos o Messias que todos esperavam. As expectativas dos seus seguidores, que o tinham aclamado à entrada de Jerusalém pensando que traria um novo Reino de justiça, viam-se defraudadas por tão dramático final. A crucificação foi uma deceção, um desengano, uma confrontação com a terrível e dura realidade de sempre. Ali, no Calvário, evaporou-se a ingenuidade dos que esperavam o Messias oficial, o proclamado e ansiado desde há centenas de anos. O Messias de verdade não era esse, o que deus prometeu enviar, não podia envergonhar com o fracasso aqueles que durante tanto tempo o aguardavam. 
O escândalo da cruz tem muito que ver com o nosso próprio escândalo, com o escândalo das pessoas LGTBI que tiveram que lidar com as expectativas que se depositaram sobre elas. É muito evidente que, como Jesus, não somos quem se esperava que fossemos. Não somos os filhos e filhas heterossexuais do deus patriarcal, por muito que durante anos tenhamos brincado às escondidas. A nossa maneira de ser e sentir impede-nos de satisfazer os sonhos que tinham depositado sobre nós familiares, amizades e igrejas. Não somos as mulheres e os homens que elas e eles esperavam, não o somos e é por isso que a cruz sempre nos espera.
Pode-se viver toda a vida com medo e escondido, é o que tentaram fazer os discípulos de Jesus quando a ele o apresaram. A cobardia é natural, é parte do nosso instinto de sobrevivência. A fuga é o primeiro impulso, o silêncio e o ocultamento vêem sempre depois. O temor guia a vida daqueles que fingem ser o Messias que os outros esperam. Pode-se morrer assim toda a vida, não é uma escolha fácil enfrentar-se à realidade.

Mas só quando crucificamos com Jesus o que se nos obriga ser e sentimos a rejeição e o insulto, é que descobrimos quem somos na realidade. Só quando pendurados dos madeiros que se levantam nas redondezas das casas e dos templos rompemos os sonhos e esperanças que se depositaram sobre nós desde que nascemos, podemos chegar a ser quem realmente somos. A cruz é a saída do armário de um Messias não normativo, e por isso a cruz, o principal símbolo do cristianismo, é o lugar onde morre de uma vez para sempre todo aquele que não somos, todas as mentiras em que nos escondemos, todos os desejos por estar à altura de quem diz nos amar. No Gólgota a nossa heterossexualidade imposta foi crucificada de uma vez para sempre.

Precisamente no momento em que a lei do sangue nos abandona, quando começa a jorrar das nossas mãos, dos nossos pés e do nosso rosto, começamos a ver que a cruz tem um sentido salvífico para as pessoas LGTBI. Quando o nosso flanco deixa de verter sangue e dele emana a água da vida, estamos conscientes de que já sobram poucos instantes para que tudo o que deveríamos ter sido, desapareça para sempre. Já não há exigências impossíveis, negações estúpidas, ódio interiorizado... Quando por fim levantamos a voz ao céu e gritamos com força ao deus que nos atormenta: “meu deus, meu deus, porque me abandonaste?”, é então quando sabemos que o antigo eu heterossexual que nunca chegamos a ser, foi  crucificado juntamente com Jesus. A partir daí, já não viverá ele, mas Deus em nós.

Depois da crucificação de quem não somos, vem a ressurreição do que Deus sempre quis para nós. A ressurreição de Jesus por parte de Deus, é a convicção em que se baseia a fé cristã, mas também o anúncio de que é possível outra vida para as pessoas LGTBI que decidiram deixar para trás o que não eram. Em Cristo, lésbicas, gays, trans, bissexuais e intersexuais somos libertados da morte por Deus. No facto principal em que se apoia o cristianismo, podemos ver o caminho que Deus põe à nossa frente. A vida de verdade vem depois da renúncia, da perda, da cruz. A vida de verdade vem depois da morte do que não somos, quando fomos capazes de renunciar ao que Deus não queria para nós.

Para trás ficam as expetativas que não pudemos satisfazer, as meias-verdades, o sentimento de ter defraudado pessoas queridas, o medo da rejeição... Atrás, na cruz fica o Messias que outros esperavam, mas que não éramos nós. Agora vem por fim a vida, a capacidade de perdoar, de nos amarmos a nós mesmos. Agora vem por fim o nosso presente e o nosso futuro, que podemos partir realmente com quem temos ao nosso lado. Agora chegam os nossos projetos, ilusões, esperanças... Agora, ressuscitados juntamente com Cristo, chega o que não tínhamos: a vida.


Carlos Osma
Tradução de Aníbal Liberal Neves

Artigo Original: "Crucificados con Jesús" 




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