miércoles, enero 27

REFLEÇÕES SOBRE EROTISMO E FÉ CRISTÃ


O erotismo serviu em muitas ocasiões para expressar a relação entre Deus e o ser humano. Na tradição judaico-cristã o exemplo mais conhecido encontramo-lo no livro do Cântico dos Cânticos, uma obra com claras referências sexuais desde os seus primeiros versos:

“Que ele me beije com beijos da sua boca!
Melhores são as tuas carícias que o vinho,
ao olfacto são agradáveis os teus perfumes;
a tua fama é odor que se difunde.
Por isso te amam as donzelas.[1]”.

Apesar de que Deus não aparece citado no Cântico dos Cânticos, foi a interpretação alegórica a que conseguiu que esta obra se introduzisse no cânone. Desta maneira o amado passou a se identificar com Deus e a amada com o seu povo (Israel em primeira instância e mais tarde a Igreja). Mas por muito que se dê prioridade à interpretação alegórica, não deixa de surpreender por exemplo que um Deus (homem) queira prender os peitos de uma Igreja (mulher) que lhe promete beijos y carícias. E ainda que a referência à heterossexualidade pareça evidente, também é evidente que os que fizeram esta interpretação tanto no judaísmo como no cristianismo foram homens, e que os representantes do povo de Israel e a Igreja também o eram. Assim as conotações homoeróticas não deveriam passar desapercebidas, porque o que estão a afirmar é que Deus (que é um homem) ama-os como eles amam as suas mulheres. Que é o mesmo que dizer, que é possível o amor entre dois homens e que este amor não seria mais que o reflexo do amor divino, um amor onde o sexo joga um papel muito relevante.

Outro momento destacado onde o cristianismo e o erotismo andaram de mãos dadas foi na obra de autoras como Teresa de Ávila, com textos tão conhecidos como:

Via-lhe nas mãos um dardo de oiro comprido e, no fim da ponta de ferro, me parecia que tinha um pouco de fogo. Parecia-me meter-me este pelo coração algumas vezes e que me chegava às entranhas. Ao tirá-lo, dir-se-ia que as levava consigo, e me deixava toda abrasada em grande amor de Deus. Era tão intensa a dor, que me fazia dar aqueles queixumes e tão excessiva a suavidade que me causava esta grandíssima dor, que não se pode desejar que se tire, nem a alma se contenta com menos de que com Deus. [2]

Este êxtase divino, mais que mostrar o amor de Deus, poderia estar a indicar o desejo sexual reprimido da religiosa. De facto alguns autores argumentam que o verdadeiro objeto de desejo de Teresa de Ávila era de carne e osso, concretamente o carmelita descalço Gracían que ela identificava com o amado do Cântico dos Cânticos[3]. Esta relação levantou invejas e falatórios e ainda que pareça que não foi uma relação consumada, Teresa de Ávila mostrou os seus remorsos ao se referir a ela mesma como “a mais malvada entre as sujas”.

O que nos mostra a experiência de Teresa de Ávila é que a espiritualidade, o desejo de Deus, a vontade de o amar, pode nascer tanto de um coração agradecido como de uma repressão sexual disfarçada que cria verdadeiros problemas psicológicos em pessoas que são incapazes de se libertar da opressão religiosa. A espiritualidade pode ser sã, ou inferniza... e como diria Freud tudo isto está muito relacionado com o sexo. A sexualidade que se tenta reprimir não desaparece por artes mágicas, por muito que o homem ou a mulher se fechem num mosteiro ou numa igreja, mas continua operando no subconsciente e influenciando na vida quotidiana. As condenações, a rigidez sexual, a necessidade de se meter na cama dos outros para condenar ou dar o visto, podem ser só mostras de uma sexualidade mal resolvida que vive presa a uma profunda insatisfação.

Nos últimos anos é talvez na música cristã o lugar onde se percebe com maior clareza como o erotismo é utilizado para expressar a relação entre Deus e o ser humano. Contudo, observa-se uma mudança substancial na maneira como alguns artistas o fazem. Tomarei como exemplo a cantora Cristiana Jaci Velasquez. Se ouvimos as suas canções, e fomos educados num ambiente cristão, facilmente entenderemos que está cantando a Deus, está expressando o seu amor por Ele. Mas se não o somos, pensaremos que está cantando a uma pessoa pela qual está enamorada. Nas suas canções, como no Cântico dos Cânticos, não se nomeia Deus, desta maneira a canção tem um mercado mais amplo e as vendas são maiores. A prova de que a fórmula é boa está no facto de que vendeu mais de cinco milhões de discos e foi nomeada para prestigiosos prémios como os Grammy. Um bom exemplo encontramo-lo na sua canção “Manantial de Caricias”:

“Hoje gravei o teu nome no meu coração, desenhei a tua imagem no meu interior, um jardim semearei para o nosso amor, onde tu serás a minha única razão. Manancial de carícias, um refúgio de paz.... Amo-te, amo-te e por ti eu morro, amo-te, quero-te amar. Hoje porei nas tuas mãos o meu futuro, eu sei que a teu lado serei feliz...”

Do que daqui podemos depreender é que quando Jaci expressa o seu amor por Deus fá-lo utilizando a heterossexualidade, a sua maneira de viver a sexualidade. O seu Deus acaricia-a como o faz um homem a quem ela ama e ela semeia um jardim, talvez como o Éden onde tradicionalmente Adão e Eva viviam, para poder disfrutar desse amor que sente. Qualquer homem heterossexual entenderia o que lhe está propondo uma mulher que lhe diz: “Amo-te, por ti eu morro, quero-te amar”.

Se nos centramos em Espanha, o cantor de música cristã com uma maior projeção é Marcos Vidal, cujo álbum “Tu nombre” foi nomeado para os Grammy Latinos em 2013 como melhor álbum cristão em Espanhol. As suas canções possuem uma clara mensagem cristã e uma poesia que recorda em muitas ocasiões os Salmos ou o profetismo. Também as suas letras utilizam às vezes o erotismo para explicar o amor por Jesus:

“Não faço mais que sonhar com o teu nome (Jesus) e dormir no teu abraço.... Em ti, em ti, o meu coração descansa em ti”.  “Quero amar-te no silêncio e sem palavras e que passe muito tempo e que ninguém diga nada... e que passe muito tempo e que ninguém me impeça, que esperei este momento toda a minha vida”. “Vem toma a minha mão, deixa-me ver-te e faz-me sentir que estás aqui, abre os meus olhos, dá-me o teu abraço, deixa a tua marca sobre mim... que o teu beijo dure sempre”.

Ainda que Marcos Vidal tenha mostrado sempre um discurso homófobo, é difícil entender porque uma pessoa que diz amar e sentir-se amado por outro homem (Jesus), com o qual sonha, que quer dormir nos seus braços, que quer passar junto dele toda a vida, que necessita sentir a sua presença corporal ou que deseja conservar sempre os seus beijos; não entenda que dois homens possam sentir isso mesmo entre eles. Apesar do seu discurso intolerante, é evidente que esse amor que ele mostra por Jesus nas suas canções contêm expressões homoeróticas claras. E não é só Marcos Vidal, dentro do movimento carismático muitos cantores-compositores compõem canções a Jesus com expressões que a muitos surpreendem quando se vê a estes mesmos cantores-compositores condenar o amor entre duas pessoas do mesmo sexo.

“Jesus eu te amo, não há ninguém como tu Jesus.. Não sei onde estaria se não te tivesse conhecido” “Quero respirar do ar da tua casa, disfrutar da tua fragância e encher-me de ti... quero estar tão próximo que te possa respirar e um só latido possa eu escutar. Quero estar tão próximo que te possa eu tocar, quero ser teu amigo, quero estar contigo”. “Tu és a minha paixão, és tudo para mim. Amo-te, minha canção e meu coração pertence-te, tudo o que sou é teu”.

O erotismo tanto na sua vertente heterossexual como homossexual esteve e está presente na espiritualidade cristã. Não importa se quem cria os versos que mostram essa espiritualidade nega todo o tipo de sexualidade ou simplesmente uma das suas manifestações. Tocar os peitos da amada, deixar-se penetrar pelo amado, ou sonhar com abraçar outra pessoa do mesmo sexo, são mostra de que todo o tipo de amor e de desejo se pode utilizar para refletir a relação entre Deus e um ser humano. Mas também podem deixar vislumbrar a experiência de tantos e tantas cristãos e cristãs que vivem tentando reprimir os seus verdadeiros desejos sexuais.


Carlos Osma
Tradução de Aníbal Liberal Neves

26 de enero, 2016




[1] Cantar de los Cantares 1,2-3
[2] El libro de la Vida. (Cap. 29)
[3] http://www.elcultural.com/noticias/letras/El-joven-fraile-que-enamoro-a-Santa-Teresa/7662

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