viernes, febrero 26

PODER-SE-Á SER “LARILAS” E CRISTÃO?


Poder-se-á ser larilas, bicha, prostituto, afeminado, veado, borboleta, brochista, rabeta, maria, louca, invertido... e cristão? Poder-se-á ser tortilheira, lenhadora, come-conchas, machorra, come-amêijoas, soldadora, sapatona, camionista... e cristã? É possível? Ou estamos a tentar resolver a quadratura do círculo?

Antes de responder se podemos ser ambas coisas ao mesmo tempo, talvez devêssemos perguntar se é possível ser cada uma delas separadamente. Para começar não tenho muito nítido isso de ser larilas ou maria-rapaz... porque na realidade não nascemos bichas nem machorras, porém disseram-nos que o éramos. Esse foi o castigo por não responder ao modelo normativo de homem ou mulher. É assim de tão simples, que não há que fazer grandes digressões, cada sociedade tem uma ideia mais ou menos ampla do que é ser homem ou mulher e por muito que vivamos numa que se diz tolerante, utilizam-se ferramentas como o insulto e a injúria para regular que ninguém saia do molde.

Não somos camionistas ou afeminados, essas palavras só querem dizer que não imitamos bem esse homem e mulher ideal que o resto dos mortais consegue reproduzir quase à perfeição (pelo menos em público). Talvez seja pela maneira como damos as mãos, pelo tom de voz, por desejar uma pessoa do mesmo sexo, por vestir de uma forma pouco convencional, por chorar quando deveríamos reprimir os nossos sentimentos, ou por ter uma vontade de ferro quando só se espera de nós que nos digam o que temos que fazer. Cada sociedade, cada classe social, cada família, cada meio ambiente, decide se a nossa imitação do género é abençoada, ou se necessitamos ser marcados e desvalorizados como seres humanos.

Aplicar-nos o rótulo de louca ou de come-amêijoas também é uma maneira de nos deslocar, de nos excluir, de nos repudiar, de nos situar numa zona invisível, inabitável e inumana. É declarar que somos perigosos para o bem comum, para os bons, para as dignas. E além disso é a maneira de dizer que o que outras e outros merecem, no nosso caso há que o ganhar. Todo o mundo tem direito à vida, à felicidade, a amar, a ver protegida a sua família, a expressar o que sente, o que deseja, a rezar na igreja se quer... toda a gente, excepto aqueles que são chamados de camionistas ou brochistas. Esta etiqueta que nos penduraram significa, para os guardiões e guardiãs do género, que devemos aceitar com naturalidade e resignação o menosprezo.

Então na realidade não somos larilas nem machorras... mas podemos chegar a sê-lo se nos dá vontade. Podemos levantar-nos todos os dias com vontade de mostrar a toda a gente que a sua imitação da masculinidade ou da feminilidade só é isso, uma imitação, e que a nós nos apetece inovar. Cada qual pode fazer o que lhe dê na gana, pode passar toda a vida dizendo que o não é “como essa louca”, ou que ela não é como “essa camionista”, mas não importa o que se diga de si próprio, porque o rótulo não o colocámos nós. Para o resto das pessoas somos umas invertidas carinhosas, inteligentes, sérias e respeitáveis… mas, ao fim e ao cabo, umas invertidas. E ainda que não no-lo digam, olham-nos, avaliam-nos e tratam como tal.

Portanto a resposta à pergunta é um retundo não: não podemos ser maricões e cristãos porque para começar não somos maricões. Mas se em vez de tentar escapar do rótulo e do insulto, nos reapropriamos dele e nos reconhecemos como borboletas e sapatonas porque nos dá vontade, porque nos apetece e gostamos de ser como somos; se temos a convicção de que um mundo cheio de rabetas e come-conchas seria muito mais justo e igualitário; se cremos que o que lhe faz falta à nossa sociedade é muito trabalho e muito pensamento para que não se despreze ninguém pelos agudos que alcança a sua voz... então a pergunta pode continuar a ter sentido: Podemos ser larilas ou machorras e também cristãs?

Para responder à segunda parte da pergunta deveríamos esclarecer o que é que nós entendemos por ser cristão. Se ser cristão significa formar parte de uma determinada igreja, haverá, pois, que ver no contrato com a dita instituição quais são as cláusulas. A maioria das igrejas, nos dias de hoje, dir-nos-ão que não, que é impossível, que regozijar-se no delito de sexo invalida uma pessoa para ser cristã. Pode-se ser o maior depravado que se queira em privado, mas dentro da igreja tem que se parecer um homem ou uma mulher honrada. Se és tortilheira terás que aguentar os teus desejos e parecer uma heterossexual reprimida, casta e pura. Os maricões felizes por o ser não serão bem-vindos, só os que disfarcem os seus trejeitos com uma áurea de espiritualidade e entrega que os faça passar por homens comprometidos com o evangelho. Assim quer o queiramos ou não, por muita fé que afirmamos ter em Jesus Cristo, é-nos impossível ser afeminados ou marias-rapaz cristãos. Nas igrejas VIP só há lugar para homens e mulheres de verdade. Só por elas e eles morreu Jesus Cristo numa cruz... só a masculinidade e a feminilidade normativas têm direito à salvação e a um banco nas igrejas.
Faria aqui um parenteses para fazer notar que o cristianismo, como o género, não são mais que um ideal que outorga direito de existência a quem constantemente o imita com mais ou menos aproximação. Não existe um cristianismo verdadeiro com o qual medir a bondade ou maldade das pessoas que dizem ser cristãs... O que cada tradição cristã tem são umas convenções mais ou menos restritivas do que significa ser seguidor de Jesus Cristo. E essas convenções vão mudando ao longo da história, por muito que moleste os fundamentalistas e integristas cristãos. A maneira de entender Jesus, o evangelho, a Igreja ou o ser humano, numa igreja do século III no norte de África, não tem nada que ver com o modo como entende tudo isso uma igreja do século XXI nos Estados Unidos (para dar um exemplo). O modelo vai mudando e quem num momento pôde ser chamado cristão, talvez hoje não o seja. Da mesma maneira que quem hoje é rejeitado, pode ser amanhã mesmo um exemplo de bom cristão (espero que não à custa de rejeitar outras diversidades).

Mas voltemos à pergunta... e se entendemos que ser cristão passa porque uma igreja nos dê a sua aprovação, encontramo-nos com o primeiro raio de luz, com a primeira possibilidade de responder que sim, que as invertidas podemos ser cristãs. Isto deve-se a que há igrejas que decidiram abrir-se à nossa diversidade. De todas as formas creio que é melhor não embandeirar e avaliar em cada caso se é verdade isso de que podemos ser marias-rapaz e cristãs nessas comunidades, se na verdade a nossa experiência serve para construir a igreja, ou só somos umas convidadas para a casa do deus Heterossexual compreensivo e moderno. Terão dado conta de que as camionistas e os rabetas de verdade colocamos em questão muitos dos seus princípios porque nascemos e crescemos num mundo que adorava o deus Homem e a deusa Mulher? Há algumas vezes em que a resposta é sim e então teremos chegado à conclusão de que se pode ser maricas e ser aceite numa comunidade cristã. Se isso serve a alguém… pois então que o disfrute. Mas no fundo essa necessidade de aceitação numa determinada comunidade, não nos impede de ser verdadeiros maricas e marias-rapaz? Não estamos vendendo a nossa identidade ao diabo? Os lambe-cús e as come-conchas de verdade não necessitam a aceitação a todo o custo, o que procuram é poder viver a sua fé junto com outros cristãos diversos, imperfeitos, pecadores e incongruentes. Vale tudo para serem aceites? Mesmo a tolerância a troco de que não façamos alarde do nosso desvio?

Tenho a convicção de que da mesma maneira que podemos chegar a ser amaneirados ou vestir lantejoulas por escolha própria, por reapropriação da injúria, também somos cristãs e cristãos porque assim o decidimos e temos vontade, porque dissemos sim à chamada do mestre. Não se trata de que uma igreja nos abra as suas portas, por muito importante que isso possa ser não é aqui onde se decide a nossa pertença a Cristo. As bichas e as tortilheiras somos cristãs pela fé em Jesus Cristo. É seguindo Jesus, um Jesus que deu pouca importância ao género, que nos convertemos em cristãos. E cuidado com o seguir o homem Jesus que os adoradores do deus Homem e a deusa Mulher pregam... Adulteraram-nO às suas conveniências. Sejamos corajosos e olhemos para esse Jesus com os nossos próprios olhos, com as nossas canetas e digamos verdadeiramente o que pensamos: que esse Jesus não era um homem como os demais, que era uma das nossas. Uma perdedora que podia sentir... Uma lutadora que não se comportou como toda a gente esperava.

E uma vez sabido que podemos escolher ser brochista come-amêijoas e cristãos e que essa escolha depende sempre em primeira instância de nós mesmas e não dos rótulos que o resto do mundo nos ponha; trabalhemos para que algum dia esta pergunta, como esta reflexão... não tenham nenhum sentido.


Carlos Osma
4 de fevereiro de 2016

Tradução de Aníbal Liberal Neves





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