viernes, enero 8

JESUS NÃO MORREU POR NÓS


Não gosto do ar, ainda que seja às cores, com o que algumas pessoas incham os seus discursos religiosos. Esses discursos que depois nos lançam à cara. Não, não gosto do fumo que sai das fogueiras onde alguns pedem que nos metamos, para viver segundo a vontade divina. E é que estou farto de tanta palha, de tanta folha supérflua, de tanta melhoria súbita... De tantos super-homens e supermulheres espirituais, exemplares, sabichões. Fartei-me da pose, do que há que dizer, do que se pode pensar, do aceitável, do correto, da única forma canónica de interpretar a Bíblia. Nada me interessa, já não há referentes que nos sirvam, deixaram-nos órfãos e assim não tenho razão para seguir os seus conselhos paternalistas.

“És um pecador, mas Jesus morreu por ti” diz um pregador de rua nas Ramblas de Barcelona. E di-lo convencido de que está a transmitir uma mensagem de vida ou morte que os transeuntes devem aceitar para não ir para o inferno eterno. E di-lo, porque ele assim o sente, porque graças a esse mantra que um dia interiorizou, a sua vida agora é outra e por fim é feliz. Olho-o e não sei que fazer, se rir ou chorar, mas opto pelo que faz a maioria; ignorá-lo. Contudo vou pensando no absurdo da cena, em que foram pessoas como ele, atemorizadas pela possibilidade de perder as suas seguranças, as que assassinaram Jesus. Homens a berrar, religiosos e sabichões que no fundo só se moviam por interesses pessoais. Integristas fariseus como esse pregador -depois de ter visto tantos, reconhecem-se no momento- que, se os deixam, continuam silenciando, humilhando e assassinando quem lhes quebra os rudimentares cimentos que sustentam a sua vida.

A poucos passos uma mulher tenta dar-me um folheto e diz-me “Jesus ama-te”, tenho que me afastar rapidamente pelos empurrões da gente, da polícia que corre atrás de um carteirista. Os turistas ficam surpreendidos, mas os que por aqui vivemos sabemos que não há que lhe dar muita importância, polícias e carteirista conhecem-se desde sempre, e se desta vez o alcançam pela trigésima terceira vez, amanhã um juiz o porá de novo na rua para que tudo volte a ser como sempre. “Jesus ama-te”, volta a dizer-me impassível a senhora com o seu sorriso impostor enquanto estende o seu braço com um folheto colorido. Não sei porquê, mas desta vez não deixo que me roubem a dignidade e digo-lhe:  “Obrigado mo recordar, os gays também gostamos que nos digam coisas dessas de vez em quando. Vindo de uma pessoa religiosa como a senhora é uma novidade”. A sua cara muda e vejo que tenta encontrar no seu manual quatro passos para salvar os pecadores, as palavras mais adequadas para me responder. “Deus não ama o pecado, mas sim, ama o pecador”. Que pouco original, digo para mim mesmo, certamente não há nada de novo nesta terra. “Pois aplique-o senhora, Deus ama-a, mas não suporta a sua homofobia. Saiba que o seu ódio faz sofrer muita gente. E o pior, é que utiliza Deus para o justificar. Tenha um pouco mais de respeito, não seja tão arrogante e não utilize Deus como uma arma”. Creio que me excedi um pouco, para começar porque a senhora não me escutou e agora pôs-se a recitar como um papagaio uns quantos versículos da Bíblia. E depois porque as pessoas que há ao meu lado se afastam e olham-me como que dizendo: “Deixa-a em paz! Pensas verdadeiramente que vais conseguir alguma coisa?”. Têm toda a razão, deixo de julgar, de ser um polícia que persegue ladrões de verdades. Que fique com todas se precisa delas, de facto o punhado que tinha, hoje em dia, já não me serve.

O mundo é um lenço, todos o sabemos, e quando pensava que por hoje já tinha ouvido suficientes mensagens pseudocristãs, tropeço-me com um conhecido no final das Ramblas. “Olá Carlos... que gosto voltar a ver-te! Que o Senhor te abençoe”. Só a frase já me dá arrepios, mas se além disso acrescentarmos uma jovem sorridente que ia de braço dado, podem imaginar a minha cara de espanto. “Hoje a nossa comunidade reúne-se no Teatro Principal. Queres vir? Vais gostar da música… e tens que ouvir o pastor, é uma grande pessoa e de certeza que te poderá aconselhar. O Senhor é todo-poderoso e pode mudar-nos. Morreu por nós para nos fazer novas criaturas”. Estava quase a responder-lhe educadamente para me escapar, mas a sua acompanhante não me deixou. “És o Carlos? Sou a Verónica, David falou-me de ti, e também tenho a certeza de que o Senhor tem grandes coisas para ti. Jesus ama-te, morreu por ti”. A minha mãe sempre me dizia em pequeno que caladinho ficava mais bonito e que contasse até dez antes de contestar uma impertinência. Tenho que dizer que chegava a contar até 35 e que o silêncio se estava a tornar um pouco tenso, pelo que tive que abrir a boca: “David, quando quiséreis, tu e o pastor desta igreja-pub, sair do armário e comportar-vos como dois cristãos que não vivem uma vida dupla mas que trabalham pela justiça, passai pela minha comunidade: Protestants Inclusius. E Verónica, tenho que te dizer que Jesus te ama, mas David não, ou pelo menos como muitos homens heterossexuais te poderiam amar... portanto vê se despertas, de certo que encontras grandes coisas que Jesus tem preparadas para ti”. Verónica e David não demoraram mais de cinco segundos em se volatilizar e desaparecer da minha vista. Ouço a voz da minha mãe na minha cabeça deitando-me à cara que não sou ninguém para dizer às pessoas como têm que viver a sua vida. Então no final discuto um pouco com ela, como quando era um adolescente e digo-lhe para não se meter no que faço ou deixo de fazer, que já sou grandito para ser sincero com quem me tenta enganar.

Chego a casa e leio o evangelho e tento ser objetivo, sei que não posso, que ainda sou vítima da urticária que me produziu o episódio anterior. E para começar, tentando ir aos factos, Jesus mais que morrer, foi assassinado. Parece estúpida a apreciação, mas não o é. Porque alguém pode morrer por escolha, por um resfriado, porque se envelheceu ou por um acidente e tudo isso não torna responsável a ninguém em particular. Mas o Jesus do evangelho que acabo de ler diz que foi assassinado por um poder político concreto, o Romano, e a instâncias de um poder religioso, o do judaísmo oficial de aquela época. Assim uma só vez acaba de me cair também ao solo a segunda afirmação: que o responsável dessa “morte” seja eu mesmo.

E continuo lendo e lendo para saber porquê assassinaram Jesus numa cruz e penso que o fizeram sobretudo por medo e porque Jesus não se submeteu nem ao poder religioso da sua época nem tão pouco ao político, considerou-os, ainda que distintos, corruptos por antepor a lei e os interesses às pessoas. Podia ter ficado na sua aldeia da Galileia, ali escondido, como algumas vezes alguns fazemos, criticando em “petit comité” os que na verdade decidem o que é o que se pode fazer e pensar; mas em vez disso foi para Jerusalém, entrou no lugar que representava o poder religioso, o Templo, e começou a expulsar dali vendedores e cambistas. Para Jesus, a casa de Deus tinha-se convertido num covil de ladrões. O económico, tinha adulterado o religioso. A casa de oração era mais um supermercado onde os detergentes que deixavam as camisas brancas davam lucro. Evidentemente isso não assentou muito bem aos homens de bem, influentes, respeitáveis e poderosos. Por isso decidiram matá-lo.

E assim o fizeram, numa cruz, ao lado de outros dois insurrectos. E morto o cão, acabou-se a raiva. Nada de novo, nada diferente que não continue ocorrendo todos os dias: gente que morre por enfrentar governos corruptos, vozes silenciadas nas igrejas por serem incómodas, pessoas que ficam pelo caminho de transformar a sociedade, desaparecidos por defender a dignidade de um povo ou de um grupo... cruzes e cruzes de assassinados, de violados, de crucificados e crucificadas pelos poderes religiosos, políticos e económicos. Pode-se espiritualizar tudo isso e ignorar a realidade, pode-se vender um discurso que não tem os pés no chão e convidar as pessoas a que se iludam, acreditem que se salvam num mundo injusto. E não só se pode fazer, como que se faz por exemplo nas Ramblas de Barcelona quando alguém te diz: “És um pecador mas Jesus morreu por ti”. A sua única intenção é encher a vulnerabilidade dos que o escutam com uma vida piedosa, com normas fáceis mas injustas, com falsas verdades contra a desorientação, com uma ética vitoriana para os que não sabem o que fazer. Engano com pinta de espiritualidade, engano que convêm tanto ao poder religioso, que ganha força e influência, como ao político e económico que se libra de mais um pensamento crítico. E do Jesus dos evangelhos, no fundo, nada de nada. Espiritualiza-se para o utilizar como desculpa, como droga que adormece, como ópio do povo.


Carlos Osma
Tradução de Aníbal Liberal Neves

17 de Janeiro de 2016

Artigo original: Jesús no murió por nosotros 



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