miércoles, septiembre 2

ESTENDE A TUA MÃO E PÕE-NA NO MEU PEITO


Surpreende-me ver tanta energia mal gasta ao esconder as feridas com as que a heteronormatividade nos marcou. Tantos falsos sorrisos, tanto discurso politicamente correto para fazer crer que não se passou nada, que tudo foi fácil, que se superou a batalha contra a heterossexualidade obrigatória sem que a dor e o sofrimento nos tenha empurrado, em mais de uma ocasião, para o desespero. Continuo sem compreender porque é que do armário só pode sair libertação e não sofrimento, porque é que nos custa tanto sair inteiros.

Não estou a falar de manter discursos de vitimização que nos impeçam viver uma vida feliz. Não há nada mais triste que ver pessoas que se contorcem na sua dor sem fazer nada para o superar. Fui testemunha muitas vezes de como a dor, o pessimismo e o sofrimento são vividos de maneira doentia, e de como algumas pessoas tentam ganhar o favor dos outros convertendo-se constantemente em vítimas. É uma experiência triste, mas não estou a falar de fazer um espectáculo com a dor padecida, mas de mostrar a realidade da nossa experiência, ainda que não seja atraente e bem vista pelo discurso“ I’m a happy gay”.

A experiência de todas as pessoas LGTBI que conheci passa por um ponto que poderia chamar-se “morte das esperanças heteronormativas”. Todas e todos fomos educados para sermos umas mulheres ou uns homens que não somos, e isso, irremediavelmente, não foi fácil, mas necessitou de uma luta mais ou menos intensa segundo o contexto de cada qual, com as pessoas que mais queríamos e que por sua vez podiam fazer-nos mais dano. Todas e todos os que vivemos “fora do armário” acabámos morrendo para o que deveríamos ter sido e voltámos a nascer para o que somos agora. Conheço centenas de pessoas LGTBI, e nenhuma delas teve um processo similar ao de qualquer heterossexual para se autocompreender, mas todas elas viveram em algum momento uma rutura, uma morte aos desejos heteronormativos com os que tinham sido educadas. E antes dessa morte, sempre houve feridas e sofrimento.
                           
É por esta razão que as pessoas LGTBI cristãs se podem sentir identificadas com Jesus de Nazaré. A sua morte não foi um passeio triunfal, ali houve dor e sofrimento real, sentimento de abandono de Deus. E segundo nos relatam os evangelhos, o Jesus ressuscitado não escondeu as marcas que a morte tinha deixado no seu corpo, de facto, nem negavam a sua ressurreição, mas eram provas irrefutáveis de que tinha ressuscitado. E penso que o evangelho com isto nos está a dizer algo importante: que as marcas de dor que um dia padecemos, não dizem nada contra a nossa nova vida, mas afirmam-na rotundamente. Um dia fomos crucificados, mas Deus levantou-nos da morte, e se o fez connosco, pode-o fazer com todas aquelas pessoas que vivem crucificadas pela heteronormatividade. As nossas marcas são o sinal da nova vida para muitas pessoas, são evangelho, pregação das boas notícias e, por isso, não devem ser escondidas.

Segundo o evangelho de João, o discípulo Tomás negou-se a crer na ressurreição de Jesus até que não visse as marcas dos cravos nas mãos do ressuscitado. A esse discípulo, Jesus apareceu e disse-lhe: “Olha as minhas mãos: chega cá o teu dedo! Estende a tua mão e põe-na no meu peito. E não sejas incrédulo, mas fiel [1]”. Jesus não utilizou as suas feridas para se vitimizar, nem para explicar o que tinha sofrido, mas como prova de que a morte não tem a última palavra e a nova vida é possível. Se queremos acabar com a incredulidade da heteronormatividade, se queremos chamar à fé num Jesus para todas e todos, temos que o fazer também mostrando o nosso peito ferido. Não por exibicionismo, mas para anunciar a vida plena.

Do armário há que sair inteiros, e para isso não deveríamos esconder nem minimizar o que sofremos. A denúncia da cruz não a podem fazer pessoas que apagam as marcas dos cravos nas suas mãos. Que existe vida depois da morte heteronormativa não o podem anunciar os que escondem o seu peito trespassado. Que Deus está connosco, que nos ressuscitou, não o podem gritar os que escondem que um dia foram crucificados. Se fomos verdadeiramente açoitados, golpeados, trespassados e dependurados no madeiro, não apaguemos do nosso corpo a prova do poder de Deus. Não impeçamos de ver os outros, que Deus pode levantá-los da morte.

10 de novembro, 2015



Carlos Osma


[1] Jo 20, 27

Tradução de Aníbal Liberal Neves 

Artigo original: 

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