domingo, mayo 24

COMO LER A PARÁBOLA DO FILHO PRÓDIGO A PARTIR DE UMA EXPERIÊNCIA GAY?

 

Essa foi a pergunta sobre a qual estive conversando há uns dias com um bom amigo... A sua conclusão foi bastante contundente: “Não lhe dês mais voltas Carls, muitos homossexuais afastaram-se de Deus e vivem uma vida de excessos sexuais e sem sentido. A parábola é um convite para voltar a casa, a voltar a Deus”. Naquele momento não pude dar-lhe uma resposta com demasiado sentido, só lhe disse que a sua não me satisfazia e que necessitava de pensar um pouco mais.

Ao chegar a casa voltei a ler a parábola e a centrar-me na personagem do filho mais novo, do filho pródigo. E quis dividir a sua experiência em três partes, para ver se via conexões com a experiência das pessoas gays ou lésbicas que conheci.

Parte 1. “Um homem tinha dois filhos, e o mais novo disse ao pai: - Pai, dá-me a parte dos bens que me corresponde. E o pai repartiu os bens entre os dois. Poucos dias depois, o filho mais novo, juntando tudo, partiu para uma terra longínqua...”(Lc 15, 11-13).

Se identificamos o pai que aparece na parábola com a família ou o ambiente mais próximo da pessoa lésbica ou gay, ou se o fazemos com Deus ou com o ambiente religioso a que pertence, creio que a parábola tem pouco que ver com a experiência lésbico-gay maioritária. A identidade que dão os conceitos gay e lésbica, o espaço que criam para a própria autocompreensão, e o mundo simbólico que geram para a vida de tantas e tantas pessoas, não foram recebidos dentro do ambiente familiar nem religioso. As heranças maternas/paternas foram diversas, e cada lésbica ou gay poderia explicar o que lhe calhou na partilha, mas nunca conheci ninguém a quem a sua família ou a sua experiência religiosa lhe deixasse em herança uma autocompreensão satisfatória do seu ser gay ou lésbica. Bem pelo contrário esta identidade construiu-se em oposição, confrontação, ou como mínimo na ausência delas.

Por outra parte, na parábola fala-se de uma saída voluntária do filho pródigo, uma fuga, uma saída em busca de experiências novas. O filho pródigo sente-se autossuficiente e pensa que não necessita do seu pai nem do seu irmão. A herança recebida basta para encarar a vida com completa liberdade. De novo encontro diferenças importantes com a experiência maioritária de gays e lésbicas. As pessoas homossexuais que conheci vivem maioritariamente deslocadas do seu ambiente familiar e religioso inicial, não de forma voluntária, mas obrigada. Numa parábola com um filho pródigo gay ou uma filha pródiga lésbica, o Pai ou a Mãe expulsá-los-ia de sua casa desde o primeiro momento. A forma de estar no mundo, para as pessoas homossexuais tem mais que ver com o deslocação forçada a um lugar não escolhido voluntariamente, que com a saída de um filho inconsciente depois de uma ilusão de felicidade.

Identificar-se como gay ou lésbica, ter a herança paterna nas mãos, não significa hoje o mesmo que há uns quantos anos: refiro-me ao ostracismo e à discriminação. Mas, sem dúvida, a identificação continua a tirar a maioria da sua casa paterna, do lugar que a família e a religião tinham pensado para ele ou para ela. Uma experiência que se afasta da que encontramos nesta parábola mas que tem muito em comum com a dos primeiros seguidores e seguidoras de Jesus, que deixaram a casa do pai/mãe em busca de uma vida mais plena.

Parte 2. “Poucos dias depois, o filho menor, juntando tudo, partiu para uma terra longínqua e por lá esbanjou tudo quanto possuía, numa vida desregrada. Depois de gastar tudo, houve grande fome nesse país e ele começou a passar privações. Então, foi colocar-se ao serviço de um dos habitantes daquela terra, o qual o mandou para os seus campos guardar porcos. Bem desejava ele encher o estômago com as alfarrobas que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava. E, caindo em si, disse: ‘Quantos jornaleiros de meu pai têm pão em abundância, e eu aqui a morrer de fome! Levantar-me-ei, irei ter com meu pai…’” (Lc 15, 13-18)

Se pensamos nas pessoas que vivem dentro do armário, o país construído para eles e elas pela heteronormatividade é um lugar de engano, marginalidade, culpabilidade, e onde o outro ou outra fica reduzida ao puramente corporal, ao sexual, a um objeto de satisfação temporal do desejo reprimido. É possível que a herdade de porcos que apascentava o filho pródigo reflita esta experiência. Um lugar criado para culpabilizar e oprimir os que não chegam a sair da casa do pai, da heteronormatividade obrigatória, e simplesmente são forçados a escaparem-se por vezes a uma herdade próxima. Nestes campos de porcos é fácil sentir que a única opção viável é resignar-se e voltar à casa do pai, ainda que sabendo que jamais poderá fazer parte dela e que muito cedo a necessidade de voltar a fugir far-se-á presente. Há muitos jornaleiros que têm pão de sobra na casa paterna, mas o pão que recebem não poderá nunca saciá-los. Podemos ler a parábola como um convite à resignação, mas na minha opinião a parábola não fala de resignação mas de redescoberta do Pai e do seu perdão ilimitado.

O filho pródigo saiu para longe dali, longe da casa do pai, algo que creio que tem muito que ver com a experiência lésbico-gay da maioria de pessoas que vivem a sua diferença sem se esconder, pessoas para as quais a sua orientação sexual integra a faceta sexual, mas também muitas outras, como a afetiva, espiritual, familiar, laboral... Afastam-se do mundo para eles criado, o da heteronormatividade ou o da homossexualidade escondida, para construir outro mundo longe do anterior. A homossexualidade por si própria não cria mundos perfeitos, mas é possível, como em qualquer outro, que as pessoas que o integram tenham que lidar com medos, incongruências, erros, etc.  Mas identificar os espaços de vida construídos pelas pessoas lésbicas e gays com um lugar de vida dissoluta, creio que só se pode fazer a partir da homofobia, seja esta heteronormativa ou interiorizada.

O mundo criado pelas pessoas lésbicas e gays, depois da saída da casa do pai, é mais um lugar de procura de sentido e de compreensão, do que o mesmo e a mesma é para além da definição que se recebia na casa paterna/materna. A deslocação foi forçada, mas algumas e alguns fizeram desta deslocação uma oportunidade para construir uma nova casa materna/paterna onde possam viver, com todas as suas limitações, felizes e em paz. Não são casas perfeitas, são espaços de vida e portanto estão submetidos à imperfeição, mas ao menos oferecem o que a casa do pai não foi capaz: um lugar onde sentir que estás viva ou vivo. Um lugar onde se possa respirar, onde se possa perdoar, onde se possa atrever a ser você mesmo ou você mesma.

Parte 3. “E, levantando-se, foi ter com o pai… O filho disse-lhe: ‘Pai, pequei contra o céu e contra ti; já não mereço ser chamado teu filho’”.

De certeza que, como o filho pródigo, algumas lésbicas e gays desejam voltar à casa de seu pai. Provavelmente depois da sua luta pelo casamento civil, por ter filhos e filhas, ou por construir novas comunidades inclusivas, havia em algumas lésbicas e gays uma petição inconsciente de perdão à heteronormatividade. É possível que em alguns casos sejam acertadas as críticas dos que pensam que as lésbicas e os gays sucumbiram ao poder do patriarcado e que já não oferecem uma proposta alternativa credível. Talvez seja certo que às vezes se cai na necessidade de ser um gay ou uma lésbica exemplar na família, no trabalho ou na igreja para pedir perdão por não estar à altura das expectativas. Talvez haja pessoas que colocando bandeiras rainbow de vez em quando nas suas igrejas, dizendo que Jesus nos ama a todas  e todos, ou formando uma família respeitável, creiam que construíram uma nova casa materna/paterna; ainda que não seja a realidade, não se atreveram a sair daquela em que vivem oprimidas.

E embora eu creia que é importante fazer uma reflexão sobre tudo isto, estou convencido de que a maioria das lésbicas e gays não caiu nesse erro, nem voltaram, nem têm intenção de voltar à casa do pai, mas que construíram a sua própria. É verdade que muitos casais heterossexuais também tentam deixar para trás a carga do patriarcado, mas sem dúvida estão em clara desvantagem com os casais formados por pessoas do mesmo sexo: os papéis e expectativas são muito diferentes. Um casal de pessoas do mesmo sexo não repete o padrão patriarcal, em essência é impossível. Estavam certos os que diziam que não se podia chamar casamento a duas pessoas do mesmo sexo, porque defendiam uma visão do casamento baseada numa partilha tradicional de papeis e na desigualdade daqueles que formam o casal. Mas esqueciam-se que também tinham que chamar de outra forma a todos aqueles casais heterossexuais que, com um esforço ainda maior, tentam escapar do modelo patriarcal em que tinham sido educadas.

As famílias formadas por lésbicas e gays, com ou sem filos e filhas, não são um pedido de perdão ao pai, mas uma nova casa materna/paterna onde se trocou a essência mesma que lhe dá sentido. Da lei do sangue que dava coesão à família patriarcal, passou-se à lei do amor que constitui e dá sentido às famílias de lésbicas e gays. E da partilha tradicional do que cada membro da família deve fazer e o que se espera dele e dela se passou ao valor da diversidade e do respeito pela diferença. Têm sorte as crianças que se educam nestas novas casas, visto que evidentemente serão mais livres do poder patriarcal. Têm a sorte de viver longe das últimas remodelações da casa patriarcal, porque essas remodelações não mudam a essência do que na realidade é: um lugar de poder masculino heterossexual.

Quanto às novas comunidades inclusivas que nascem depois de fugir das comunidades para heterossexuais creio que ainda é cedo para saber se são só uma forma de pedir perdão e voltar após o poder do deus pai heterocentrado, ou se pelo contrário são espaços capazes de gerar um novo lugar de liberdade onde as pessoas lésbicas e gays vivem a sua espiritualidade de forma plena e a partir do que elas e eles sentem, vivem y são. Creio que é difícil remover de uma só vez o veneno recebido durante tanto tempo, mas vejo indícios claros de que se querem construir comunidades realmente mais evangélicas onde não só se aceitam pessoas lésbicas e gays, mas se entende que as diferentes formas de ser lésbica, gay, bissexual ou heterossexual podem trazer à comunidade e podem ajudar a ver o evangelho sob outros matizes e acentos. O Deus, que aqueles que formam estas comunidades transmitem, tem ainda que se desprender de muitos preconceitos com o que a heteronormatividade o envolveu; não basta anunciar a um Deus que nos ama como somos. É necessário descobrir como esse Deus se manifesta na forma de amar, de ser e de sentir de gays e lésbicas. E é importante também atrever-se a olhar para Deus diretamente a partir do que somos, e não através do que nos disseram que deveríamos ser. Só assim as novas comunidades inclusivas serão novas casas maternas/paternas onde Deus se revele de forma mais plena.

As cristãs lésbicas e os cristãos gays somos chamados a seguir o caminho de Jesus. Um caminho que o levou da casa patriarcal de José, Maria e seus irmãos e irmãs, a uma nova casa que construiu junto aos seus discípulos e discípulas. Uma nova casa onde os valores patriarcais foram substituídos pelos valores do Reino onde o amor é à medida de todas as coisas.


Carlos Osma


Tradução de Aníbal Liberal Neves 

Artigo original: http://homoprotestantes.blogspot.com.es/2014/09/como-leer-la-parabola-del-hijo-prodigo.html#.VkjIsdIvfs0






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